Amor e Outras Coisas

"It's not hard to grow when you know that you just don't know"

Quarta-feira

1

Outubro 2014

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Nada é pra já

Escrito por , Postado em Sem categoria

Há dez anos escrevi uma carta de adeus, e nela inseri o trecho de um livro da Fernanda Young, que dizia assim:

Sabe qual é o meu sonho secreto? Que um dia você perceba o quanto poderia ter aproveitado melhor a minha companhia. Que um dia imagine o quanto teria sido ótimo estar ao meu lado mesmo quando eu estava gripada.

Quando escrevi aquela carta estava passando por um dos momentos mais dolorosos da minha vida. Talvez o mais doloroso de todos. E aquela carta foi a minha libertação. Precisava escrevê-la pra conseguir virar a página e seguir em frente. E foi o que eu fiz. Só que, naquela época, eu não conseguia entender que os momentos ruins nos ensinam muito mais do que o contrário, e acabei escrevendo uma carta cheia de mágoa e rancor. A única coisa que eu conseguia pensar era que nunca seria capaz de superar o ridículo daquela situação. Eu era patética achando que morreria de amor aos vinte e dois anos. E eu desejava que um dia, mesmo que levasse uma vida inteira, aquela pessoa percebesse que não me escolher tinha sido a decisão errada. Como se isso fosse mudar alguma coisa. Uma tolice.

Há pouco tempo tive a chance de dizer “eu te avisei”. No entanto, não disse. Porque hoje já não faz a diferença que achei que faria pra mim. Nesses dez anos eu aprendi que às vezes o amor chega, a gente aprende com ele e precisa deixá-lo ir embora para ensinar outra pessoa. Alguns, como eu, aprendem, e constroem relacionamentos melhores que os anteriores. Outros seguem repetindo seus padrões falidos. Acho meio triste.

Hoje, analisando friamente, percebo que aprendi demais com tudo aquilo. Dez anos depois me sinto muito mais feliz sem todas as perdições internas que aquela situação me causava. Sem aquela sensação horrível de não lembrar o que eu fazia da vida antes e para onde poderia ir depois que tudo terminasse. Aquela coisa suburbana que era me sentir negligenciada o tempo todo, e mesmo assim, seguir tentando me encaixar, preencher os vazios, os vãos, os buracos. Eu estava sempre ali. A boboca acessível e moldável, sempre disponível.

Não digo que não fui feliz. Claro que fui. Durante dois anos fui feliz por cerca de três meses. Mas hoje vejo que nada foi aquele amor de filme que eu pensava ter sido na época. Eu não sabia que era muito mais infeliz do que feliz, tentando ser a mulher mais compreensiva do mundo, a mais paciente. Às custas de muita dor, porque quanto mais eu me esforçava para parecer feliz, menos eu podia me abrir sobre os meus medos, sobre as várias crises que tive, todas muito bem encobertas, porque eu achava que se mostrasse minhas inseguranças não seria tão amada. Era tão cansativo, tão música da Bethânia.

De certa forma, uma parte de mim morreu ali, junto com aquela carta. Como no inverno, quando as árvores perdem as folhas velhas e queimadas pra dar lugar às novas, na primavera. Um pedaço de mim morreu pra que outro melhor, mais maduro, mais seguro, pudesse crescer. Cresci em dois anos o que não tinha sido capaz de crescer em vinte. Aprendi sobre mim e sobre a vida coisas que, talvez, levasse outros vinte anos para aprender se não tivesse me colocado naquela situação. Porque, sim, fui eu que me coloquei naquela situação. Sempre existe um momento na vida em que a gente pode optar entre fazer ou não alguma coisa. Não me lembro exatamente quando foi o meu momento, mas ele certamente existiu.

Demorou, mas hoje consigo ver o quanto tudo aquilo foi importante na minha vida. Todo aquele sofrimento me ensinou como se ama alguém de verdade. Sem loucuras, sem angústias, sem amarras. Hoje posso dizer que aquele foi o pior, porém um dos mais importantes períodos da minha vida. Porque foi o meu inferno, mas aprendi coisas muito importantes enquanto estava lá. Sem aquilo, hoje, talvez, estaria fazendo tudo errado, repetindo os mesmos erros. Tudo o que eu vivi naqueles dois anos me preparou para a pessoa que tenho hoje. No fim, como já disse o Chico, era como se eu estivesse guardando aquele amor num fundo de armário, na posta-restante. Um amor que era meu, que não dizia respeito ao outro, e que eu poderia reciclar, aprimorar e usar com o escafandrista que um dia seria verdadeiramente merecedor dele. Com o homem que é o melhor que já passou pela minha vida e merece cada centímetro de mim, mesmo quando ele está gripado.

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você

Quinta-feira

31

Julho 2014

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Tempo tempo tempo tempo

Escrito por , Postado em AMOR, OUTRAS COISAS, Vida

Quando eu era adolescente jurava que, aos 30 anos, minha vida já estaria completamente organizada. Eu estaria bem estabelecida profissionalmente, seria reconhecida na minha área de atuação, teria uma situação financeira equilibrada, casada, mãe do menino ruivo 1 de 2, dirigindo uma caminhonete grafite e dona de uma casa branca de janelas azuis dentro do Vilarejo, da Marisa Monte.

*Pausa para risos*

Hoje estou com 32 anos. E do planejamento acima, fora o estado civil, ainda estou trabalhando no restante.

Pra começar, decidi ir pelo caminho mais difícil e abri minha própria empresa, ao invés de ser funcionaria de alguém. Esqueça tudo o que te disseram sobre as maravilhas de ser seu próprio patrão. Numa boa, ser seu patrão é uma merda. Bom mesmo é ganhar bem sendo funcionário da empresa de outro alguém, ter carteira assinada + benefícios, cartão de ponto, horário de almoço e salário depositado em conta até o 5° dia útil do mês. Bom mesmo é trabalhar de 09h às 17h, e ao bater a porta do escritório atrás de você, na sexta-feira, deixar todos os problemas do trabalho trancados naquela sala até a segunda-feira seguinte. Bom, bom mesmo é ter 13° salário, cobertura do INSS em caso de doença e licença maternidade. Sobre empreender: ¡hay que tener cojones!

Empreender dá muito trabalho, exige muito esforço, muita dedicação, muito investimento até uma empresa dar certo. E, consequentemente, algumas outras áreas da vida podem acabar sendo negligenciadas. Como, por exemplo, ter filhos. Como ser mãe sem estabilidade financeira? Eu sei que tem gente que acredita ser possível, mas não sou dessas. Na minha infância meus pais não tinham estabilidade financeira alguma, e apesar de no final ter dado tudo certo (acho), lembro bem o quanto foi difícil pra eles criar 3 filhas com o mínimo de dignidade. Lembro também o quanto era difícil pra mim chegar do colégio e correr pra lavar a camisa do uniforme, pra dar tempo de secar e usar novamente no dia seguinte. Porque com o dinheiro que a gente tinha só dava mesmo pra ter um uniforme. Se ele ganhasse um furinho de traça com o passar do tempo, vovó tinha uma técnica maravilhosa de disfarce chamada “cerzir”.

Não sou o tipo de pessoa que acha que uma criança precisa ter tudo do bom e do melhor desde sempre. Muito pelo contrário, acredito em crianças que crescem e se transformam em seres humanos melhores, que dão mais valor ao que tem, quando precisam se esforçar pra construir alguma coisa na vida. Por outro lado, defendo que toda criança merece ter o mínimo e todos os pais merecem poder dar o mínimos aos seus filhos. E é por isso que essa parte, ter filhos, ficou em suspenso durante um bom tempo.

O restante simplesmente deixou de ser prioridade, uma necessidade imediata. Seis meses antes de casar me mudei do Rio para São Paulo e sempre tive dúvidas se realmente precisava de uma caminhonete grafite nessa cidade. Vivi lindamente os últimos 4 anos da minha vida sem precisar pagar IPVA e, por mim, tudo certo. Só agora começo a reconsiderar essa possibilidade, já que a maternidade passou a ser uma objetivo a curto prazo. (Calma, nem tão curto assim.)

Casa própria, então, só foi um desejo, desejo mesmo, na adolescência. Depois de adulta nunca tive isso como um desejo real. Ainda vou ter minha casa branca de janelas azuis, claro, mas não tenho pressa alguma. Na verdade, hoje acho muito esquisita essa necessidade louca que as pessoas tem de casa própria a qualquer custo. Mas, enfim, não vou discorrer sobre o assunto agora. O fato é que, se o aluguel me possibilita morar com o conforto que eu quero, no bairro que eu gosto, pelo valor que eu posso pagar, e eu não seria capaz de conseguir isso comprando um imóvel nesse momento da minha vida, não vejo porque fazer disso uma crise. Pago meu aluguel lindamente com a certeza de que tenho tudo o que preciso no momento presente, e sigo sendo feliz até deixar de ser.

Falando assim pode parecer, mas não é que tenha sido sempre tão fácil lidar com o fato de que o meu plano de vida não tenha dado exatamente certo, no tempo que eu estabeleci pra mim. A verdade é que eu passei alguns bons anos comparando as minhas conquistas com as conquistas de outras pessoas da minha idade. E o resultado, na maioria das vezes, foi bastante frustrante.

Até que um belo dia eu parei de prestar atenção no gramado verde do meu vizinho e passei a prestar mais atenção no meu. No que faltava no meu gramado pra que eu fosse feliz de verdade. A conclusão à que cheguei foi que o meu gramado ainda não está assim tão verde. Pra falar a verdade, tem até alguns buracos e queimaduras de sol nele. Mas, considerando o fato de que eu mesma arei a terra, adubei e plantei todas as mudas, até que estou fazendo um bom trabalho nele.

Na verdade, foi o tempo que fez um ótimo trabalho comigo. Me ensinou a não ter pressa. Que a vida acontece devagar, aos poucos, e que eu sou capaz de lidar com isso. Hoje consigo ver as coisas com muito mais clareza. Pode ser que eu realmente não precise de muito mais do que eu tenho agora. Pode ser que de tudo o que eu sonhei, que imaginei ser necessário para me fazer feliz, bem pouco seja realmente necessário. Penso muito nisso. De fato, o lugar onde eu estou hoje é bem diferente do lugar onde, na adolescência, imaginei que estaria. Mas, ainda assim, é um lugar ótimo.

Hoje, sem tanta idealização, tanto planejamento, tanta cobrança, sou capaz de viver de uma forma muito mais leve e me preocupar com um problema apenas quando ele começa a ser um problema de verdade, ao invés de antecipar o sofrimento. Sou capaz de viver com um pouco de incerteza sobre o meu futuro e até me pego gostando das surpresas que a vida prepara pra mim, vez por outra. E eu descobri que não quero viver sem isso, sem a surpresa.

Durante esse exercício de tentar descobrir porque o meu tempo estava tão errado, acabei descobrindo que eu não preciso que o meu gramado seja o mais verde que já se viu. Só preciso que ele seja um bom gramado. E eu sempre posso plantar mais algumas mudas. Porque, aos 32 anos, ainda tenho muito tempo pra regar.

” Calma. É aos poucos que a vida vai dando certo.”

Domingo

23

Março 2014

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P.S. I Love You

Escrito por , Postado em AMOR, FILHOS DE 4 PATAS

Assim que a Capitu faleceu, meu primeiro pensamento foi “nunca mais! nunca mais!” Porque no meio do meu sofrimento, não conseguia evitar pensar que todo cachorro que viesse morar aqui morreria de repente, assim como ela. Felizmente, esse pensamento só durou uns 3 dias. Porque eu sei que, apesar de relativamente curta, a vida com um cachorro é muito mais colorida. Ainda assim, não é fácil lidar com o medo de me apegar novamente, perder de repente e sofrer tudo de novo. No outro dia mesmo estava comentando que não sei se já estou preparada para ter outro cachorro. E, honestamente, não sei.

O que eu sei é que sinto muita falta da rotina, dos passeios, da presença de um cachorro, de cuidar de um ser que depende exclusivamente de mim. O ‘problema’ todo é que a Capitu se foi, mas antes de ir deixou um amor muito grande aqui pra mim, e eu preciso fazer alguma coisa com ele. Preciso direcionar esse amor pra alguém, pra algum lugar. Um amigo me sugeriu uma ONG para quando eu estivesse preparada para adotar novamente, e foi aí que eu tive uma ideia: sabendo que ainda não estou preparada para uma adoção definitiva, decidi fazer de outra forma e me ofereci para ser lar temporário.

Ontem, depois de trabalhar pela primeira vez como voluntária em uma feira de adoção, recebi meu primeiro hóspede, o Frederico – que já chamo carinhosamente de Fredo. Ele vai ficar aqui com a gente durante um tempinho, recebendo amor e cuidados até encontrar uma família que o mereça. Enquanto essa família não chega, somos os responsáveis pela sua felicidade. Mas, não pense que não me envergonho um pouco por essa atitude não ser totalmente altruísta, está bem? Preciso ser muito sincera e dizer que um pouco disso é por mim também. Fiquei bastante traumatizada com a forma como a Capitu se foi, e acho que ver um cachorro entrar e sair da minha vida com o meu conhecimento pode me ajudar a superar isso e me abrir para um outro cachorro entrar no meu coração e morar, definitivamente. Acho que esse é o único jeito de não ficar pra sempre imaginando que todos os meus cachorros vão morrer do nada. Então, na verdade, é o contrário: não sou eu que estou ajudando o Frederico. É o Frederico que está me ajudando.

Eu estava muito empolgada com a sua chegada! Mal podia esperar para tê-lo aqui caminhando pela casa, cheirando tudo, fuçando tudo, virando tudo de pernas pro ar, do jeito que a Capitu fazia. Só que quando ele chegou, ao contrário da Capitu, não correu pra varanda pra ver os carros passando na rua. Ao contrário da Capitu, ele não queria ficar ao nosso lado o tempo todo e não tentou subir na minha cama. Simplesmente foi deitar na cama que demos pra ele. Ao contrário da Capitu, ele não chorou pra ficar no nosso quarto e não precisou de uma peça de roupa nossa pra ficar tranquilo durante a madrugada. Ele simplesmente deitou e dormiu. Dormiu a noite toda. Ao contrário da Capitu, ele não ficou choramingando de saudade na porta do banheiro enquanto eu estava lá dentro. Ele é muito mais independente do que ela.

Eu tinha a ilusão de que seria igual. Projetei a Capitu nele e, obviamente, me decepcionei. Não com ele, coitado. Ele é o máximo! Um coisico maravilhoso, educado, brincalhão, simpático, um anjo! O problema não era com ele, era comigo. Eu estava fazendo tudo errado. O Frederico é o Frederico. É incrível, é delicioso, mas não é a Capitu. De repente acordei e me dei conta de que nenhum cachorro nunca será como ela. E a minha primeira reação foi ficar triste, muito triste. Doeu perceber que nunca mais será igual.
Fiz carinho nele, coloquei na cama e fui deitar na minha, chorando de saudade da minha garotinha.

P.S. I Love You era o filme no Supercine. Já tinha assistido inúmeras vezes, mas simplesmente não resisto. No filme a Holly está de luto pela perda recente do marido, Gerri, que antes de falecer deixou uma série de cartas que iam chegando de maneira inesperada, com o objetivo de ajuda-la a superar a perda e guia-la em direção a uma nova vida, dessa vez sem ele. Ontem, assistindo ao filme pela milésima vez, senti mais ou menos isso em relação à Capitu. É como se, depois que ela se foi, de tempos em tempos eu recebesse uma carta com uma missão e, junto com ela, aprendesse uma nova lição.

A ideia repentina de me voluntariar em uma ONG não foi por acaso. Conhecer o Frederico e trazê-lo para se hospedar aqui não foi por acaso. Nada disso é por acaso. Eu sei que a Capitu veio pra me ensinar muitas coisas. Já identifiquei algumas, outras estou identificando aos poucos. Mas o importante é que eu entendi, e hoje acordei me sentindo diferente em relação ao Fredo. Entendi que o papel dele é me mostrar que não, meu próximo cachorro não será como a Capitu. Não existe ou vai existir nenhum outro como ela. Mas isso não é ruim. É só diferente. Cada cachorro é diferente do outro, tem suas próprias qualidades e particularidades. Cada um é especial à sua própria maneira, e poder descobrir um pouquinho mais sobre cada um deles todos os dias é o que os torna tão irresistíveis.

Mas, pensando bem, tem uma coisa no Fredo, uma única coisa que é exatamente igual à Capitu: o amor. O amor que ele é capaz de dar é exatamente igual! E isso faz dele um cachorro tão especial quanto ela foi. Outra bolota de pelo que merece ter tanto amor quanto ela teve.

Eu entendi a ‘carta Frederico’.
Obrigada de novo, Capitu.

P.S. I Love You

Terça-feira

18

Março 2014

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Somebody that I used to know

Escrito por , Postado em OUTRAS COISAS

Percebi que sempre que tenho uma cólica forte acho que vou morrer com o mal estar. Mas depois que a dor e o desconforto vão embora, sempre fica uma sensação muito boa de que não me sentia tão bem há dias. Fico cheia de disposição, animada e feliz. Fiz uma analogia entre essa dor e outras dores da minha vida, e finalmente percebi o quanto é importante deixar doer de vez em quando. Porque de alguma forma a dor nos ajuda a perceber o quanto as coisas eram boas ou podem ficar. E quando elas voltam a ser como eram ou se transformam, damos mais valor àquelas pequenas coisas que nos dão tanto prazer, como o simples fato de não sentir mais cólica.

Minhas duas últimas semanas não foram fáceis. Os acontecimentos recentes me fragilizaram de uma forma que nem eu imaginava que seria possível, mesmo conhecendo muito bem o valor das coisas que perdi. Perdi uma coisa muito importante, mas que de verdade não imaginava que doeria tanto. E me afastei de uma coisa que não tem valor algum, além do valor que eu dei. A dor da perda eu consegui entender. O que eu não conseguia entender era porque o afastamento queria doer também.

Resolvi tirar um tempo pra olhar pra dentro, me visitar e tentar entender porque esses últimos acontecimentos me balançaram tanto. Porque eu sempre achei absolutamente normal se sentir péssimo pela perda de alguma coisa muito importante na nossa vida. Mas, ao mesmo tempo, sempre achei um desperdício de energia sem tamanho se sentir mal por alguém ou alguma coisa que, no fundo, já foi tarde.

O fato é que quando não quero enxergar alguma coisa eu simplesmente viro a cara pro lado e finjo não ver. Porque poucas coisas me arrasam mais do que me decepcionar com alguém que eu gosto, por exemplo. E eu nem posso reclamar, porque a única culpada sou eu. Quando eu projeto meu amor em alguém, crio expectativas, espero ser correspondida e corro o sério risco de me desapontar. Porque já me disseram várias vezes que nenhuma pessoa é obrigada a ter por mim a mesma consideração que tenho por ela, só que eu não aprendi essa lição direito.

O que eu aprendi – e posso não ter aprendido mais nada nessa vida, mas isso eu aprendi – é que lealdade é uma coisa absolutamente necessária em uma relação de amizade. Tenho milhares de defeitos, Deus sabe que estou muito longe de ser uma pessoa perfeita, mas isso eu aprendi. E se eu não puder esperar lealdade de um amigo, pra mim não vale à pena, perde todo o sentido.

Há alguns anos eu conheci alguém. Viramos amigos (ou pelo menos eu virei), e em pouco tempo estava dividindo coisas íntimas da minha vida com essa pessoa. Algum tempo depois tive um desentendimento com alguém do nosso círculo comum. Esse amigo me ligou pra saber o que tinha acontecido e disse “você está certa, estou do seu lado, mas disse pro fulano que quem está certo é ele pra não criar problemas desnecessários pra mim”. E deu uma risada sem graça, como se ele mesmo estivesse tentando se convencer de que aquela era uma atitude normal em uma amizade.

Aquilo me incomodou, mas por algum motivo fiz como sempre faço quando não quero enxergar alguma coisa: fingi não ver. Guardei aquela história em alguma parte inacessível dentro de mim, só pra não ter que lidar com o problema. Porque eu achava que nem toda dor precisa doer pra ser curada. Desse dia até aqui, outros fatos semelhantes aconteceram, algumas demonstrações claras de ingratidão, deslealdade e egoísmo. E anos se passaram até que eu finalmente me visse obrigada a voltar e repensar aquele primeiro acontecimento.

Foi aí que eu entendi o que me incomodava: eu jamais diria pra alguém que machucou um amigo meu que ele está certo, sabendo que ele está errado, só pra me livrar de um mal estar. Sempre acreditei que os amigos de verdade a gente defende com unhas e dentes. A briga deles é a minha briga. A antipatia deles é a minha antipatia. Mas só dos de verdade. Então, novamente, culpa minha. O meu erro foi achar que eu fazia parte do grupo de amigos de verdade daquela pessoa. O que queria doer, e eu não deixava, era me dar conta de que eu nunca fiz parte desse grupo.

Finalmente, depois de fugir por anos, resolvi tomar coragem e deixar aquela dor doer. E depois que doeu bastante, achei que já tinha passado da hora de dar um basta. E dei. Nem me dei ao trabalho de avisar. Pra quê, se eu mesma sou uma prova de que quando uma pessoa não quer enxergar, ela vira a cara pro lado e finge não ver?

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, tive outras provas de amizade verdadeira. Algumas eu já sabia que eram de verdade, outras me surpreenderam de forma muito positiva, porque eu realmente não esperava.

Foi então que, finalmente, consegui entender a importância de deixar toda dor doer. Às vezes essa dor não é tão simples quanto uma cólica, e um comprimido de Ponstan não resolve tão facilmente. Mas agora eu sei que, mesmo nesses casos, sentir dor é importante. Se eu tivesse deixado essa dor, especificamente, doer na hora que queria, teria evitado muito mais dores pelo caminho. Agora já foi. Levou muito mais tempo do que o necessário, mas já doeu e já curou. Antes tarde do que nunca.

Quinta-feira

13

Março 2014

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Porque.

Escrito por , Postado em AMOR, FILHOS DE 4 PATAS

Uma semana depois da notícia da morte da Capitu, meu coração começa a se tranquilizar, finalmente. A culpa por não ter estado ao lado dela já não me corrói tanto. Claro, eu preferia milhões de vezes ter estado lá com ela nos braços, mas já não me sinto o pior dos seres humanos por não ter conseguido. Eu não podia imaginar, afinal. Nada apontava pra isso.

Talvez, justamente por isso, ainda me atormente um pouco não saber o que aconteceu de fato. Às vezes ainda me pego tentando descobrir em que momento as coisas começaram a dar errado ou o que eu poderia ter feito pra evitar. Eu sei, let it go. É uma bobagem pensar nisso porque não vai trazê-la de volta. E, no fundo, eu sei que fiz tudo o que podia. Mas, nos momentos de mais saudade, é meio que inevitável pensar assim. Até porque, não vamos esquecer: um filhote feliz e saudável que simplesmente morreu do nada. Tem gente achando poética a forma como ela se foi. Eu acho apenas patético. Preciso de uma causa decente.

Foi quando já estava quase conformada que o meu cachorro simplesmente morreu de morte morrida, que conversando com uma veterinária, encontrei uma possível explicação para o que aconteceu com ela, e na qual resolvi acreditar: estresse. Aí você vai me dizer “oi?” Mas, espera. Lê o post inteiro antes de me achar louca. Porque eu até sou louca, mas não por isso.

A Capitu se enquadrava perfeitamente em um caso típico de síndrome do abandono, muito comum em cães adotados. E não era pra menos, rodou bastante nos dois primeiros meses de vida antes de chegar aqui. Nos primeiros dias depois do nascimento foi tirada da mãe. Desmamada cedo demais, foi jogada no lixo junto com 3 irmãs. Cada vez que penso nisso desejo um dia poder olhar na cara da pessoa que fez isso e gritar: verme! Felizmente, todas foram recolhidas por um senhor que as levou pra casa, onde foram adotadas e amamentadas pela cachorra dele. Quando penso nisso também desejo um dia poder estar no mesmo lugar que essa cachorra e dizer “meu amor, você é melhor do que muito ser humano que eu já tive o desprazer de conhecer na vida”.

No tempo que ficou lá foi acidentalmente mordida por um escorpião, e viu cada uma das suas irmãs irem embora para a companhia de novas famílias, enquanto ela ficava. Depois da sua recuperação, foi separada da sua mãe adotiva e partiu para a Ong responsável por encontrar uma família para ela. A família, no caso, fomos nós, felizmente. Felizmente pra nós, obviamente. <3

O sofrimento dela cada vez que saíamos de casa, mesmo que por 5 minutos, era de cortar o coração… Ela arranhou todas as paredes perto da porta a ponto de arrancar a tintura. Chorava como se alguém a estivesse torturando. Não era normal aquilo. Já tive outros cachorros, sei que no início a maioria deles sofre com a separação dos seus humanos. Mas nada se comparava ao desespero da Capitu. Era sofrimento, muito sofrimento pra ela. Nunca vi nada parecido com aquilo.

Tentamos várias técnicas para ajuda-la a entender que nos ver saindo de casa não significava o fim do mundo. Nós voltaríamos. Sempre voltaríamos. Com o tempo as coisas melhoraram, mas não muito. Era possível ver o desespero dela, o medo de ser esquecida cada vez que saíamos de casa.

No carnaval, viajamos. Por algumas razões ela não pôde ir conosco, então decidimos que se era pra separá-la de nós, que ela fosse cuidada por alguém conhecido, de confiança. E foi quando decidimos que ela iria pra casa dos meus sogros e ficaria na companhia do Zombie, com quem poderia brincar e se distrair. Não seria a primeira vez, inclusive. No Natal ela já tinha passado alguns dias lá e tudo correu bem, sem nenhum sobressalto. Dessa vez ela simplesmente morreu. Não canso de achar ridículo.

Conversando com essa veterinária, ela me contou que o que aconteceu com a Capitu não é tão raro quanto se imagina. Muitos filhotes saudáveis morrem repentinamente enquanto estão viajando, na companhia dos seus humanos ou não. Por algum motivo a mudança de ambiente repentina pode ser uma experiência muito estressante para alguns cães, sobretudo os filhotes. No caso da Capitu, com o componente psicológico do abandono, imagine.

Nunca teremos certeza, mas pode ser que ela tivesse desenvolvido uma doença chamada hipoadrenocorticismo canino, também conhecida como Doença de Addison. Trata-se de uma síndrome que resulta da incapacidade das glândulas adrenais de produzirem os hormônios responsáveis pela reação “luta-ou-fuga”. Entre eles, o cortisol, que estimula a formação de glóbulos vermelhos no sangue e equilibra a pressão sanguínea. A produção irregular desse hormônio faz com que o cão perca sua capacidade de lidar com o estresse, que pode ser causado por coisas tão simples quanto uma pequena mudança na sua rotina diária. É por isso que em muitos casos basta uma simples viagem para trazer à tona a doença.

Muitos cachorros não apresentam sintomas físicos alarmantes logo de cara. Um ou dois dias sem se alimentar direito, por exemplo, ainda mais no verão, quando até pra nós é normal perder um pouco do apetite, não vão fazer nenhum ser humano normal correr com seu cachorro para o veterinário e pedir um check-up completo do animal, concorda? A não ser que seja recorrente e/ou acompanhado de outros sintomas como vômito, diarreia, etc. E é justamente por isso que muitos cachorros só são diagnosticados com a doença já no período de crise aguda, que normalmente é seguida de choque e colapso. A tal da morte morrida.

Depois de conversar bastante com a veterinária, pesquisar sobre o assunto, e conhecendo a Capitu como eu conhecia, acho totalmente possível que a causa tenha sido essa. Como disse, porém, nunca teremos certeza. Mas resolvi acreditar nisso. Prefiro isso à tal morte poética. Por favor, eu sou taurina, gosto das coisas concretas. E ainda que agora eu saiba que ter uma causa mortis decente não faz com que eu me sinta melhor sobre a sua partida, pelo menos não prejudica a minha própria capacidade de produção de cortisol.

Quarta-feira

12

Março 2014

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Sobre ser pai

Escrito por , Postado em AMOR, CASAMENTO, FILHOS, FILHOS DE 4 PATAS

Que fique esclarecido que esse blog não é sobre a minha falecida cachorra. Se não fiz isso quando ela estava viva, fazer agora seria um tanto quanto mórbido. Mas me parece natural que, nesse momento, ela seja um assunto recorrente por tudo o que sua chegada e partida significaram pra mim.

A Capitu foi uma experiência de vida. Coloriu meu mundo, me ensinou várias coisas sobre o amor, me explicou pra mim de uma maneira que 12 anos de análise nunca foram capazes de fazer. Por isso talvez ainda fale bastante sobre ela. Então, tenha paciência.

Ou leia outro blog.

A Capitu me ensinou muito sobre o meu marido, por exemplo. O Rafael é uma pessoa incrível, essencialmente boa, marido carinhoso, atencioso e preocupado, capaz de qualquer coisa pra me ver sorrir. É um filho muito melhor do que eu jamais fui. Mas, eu sempre tive uma dúvida sobre ele: será que ele daria um bom pai? Tudo indicava que sim, mas certeza mesmo eu não tinha.

A ideia de ter um novo cachorro em casa foi toda dele. Por mim, honestamente, não teria. Desde o problema de saúde sério que o Zombie, meu primeiro cachorro desde que saí da casa dos meus pais, teve (ainda vou falar mais sobre isso em algum momento), decidi que não teria outro. Não por não ter vontade, mas porque o sofrimento que passei com ele foi enorme, e eu simplesmente não queria passar por algo parecido novamente. Não tenho estrutura pra isso, apenas. Mas ele plantou a sementinha, regou e adubou durante anos, até que eu finalmente cedi. Adotamos a Capitu e eu pensei “por que não fizemos isso antes? A vida teria sido mais divertida por muito mais tempo!

Meu principal medo era que ele só ficasse com a parte boa e, no final das contas, a responsabilidade mesmo fosse apenas minha. No entanto, me surpreendi com ele todos os dias, desde o primeiro dia. Já na saída da feira de adoção ele deixou claro que assumiria responsabilidades. Enquanto voltei pra casa sentada no banco do carona do táxi dog, ele viajou com ela na parte de carga. Ela dentro da caixinha de transporte e ele sentado desconfortavelmente do lado de fora, fazendo companhia pra que ela não se sentisse sozinha.

Chegando em casa, foi ele quem apresentou o apartamento pra ela. Foi ele quem preparou com jornal o cantinho onde ela faria as necessidades e garantiu que ela aprendesse. E ela aprendeu já no primeiro dia, um anjo. Foi ele quem teve a ideia de deixar com ela uma peça de roupa de nós dois, pra que ela se sentisse mais segura durante a madrugada.

No dia seguinte eu tinha uma reunião de trabalho em outra cidade. Precisei sair cedo e ela teve que ficar sozinha o dia todo. Ele tem dois empregos, um pela manhã, depois sai, almoça e vai pro segundo, quase do outro lado da cidade. Durante os dois dias que eu estive fora ele desmarcou os pacientes das 10h e das 11h, pra ter tempo de voltar em casa e ver como ela estava, antes de partir para o segundo trabalho. Ele não queria que ela se sentisse abandonada. Afinal, eram seus primeiros dias naquela casa estranha, sem as irmãs e as tias da Ong.

Era ele quem dava o café da manhã dela todos os dias. Dividia com ela o mamão, a banana e depois preparava o atum que ela amava pra misturar na ração. Tirava o jornal sujo e colocava novos. Posso dizer que pouquíssimas vezes esse papel foi meu.

Foi ele também quem a educou a não subir na cama. Tê-la na cama não era um problema pra mim, mas ele não queria. Então fez questão de educa-la a não subir, pelo menos na presença dele. Ela tentava subir várias vezes durante a noite. Ele teve paciência em todas elas. Ela subia, ele tirava. Subia de novo, ele tirava. Várias vezes, todas as madrugadas, durante semanas. Levava ela até sua própria caminha, sentava do lado e ficava fazendo carinho até ela adormecer. Me ofereci pra fazer esse papel no lugar dele várias vezes, mas ele queria fazer, mesmo tendo que acordar às 5h30 da manhã. Teve uma noite em que ele chorou de cansaço. Mas, ainda assim, não abriu mão do seu papel e o exerceu pacientemente.

Meus passeios diários com ela duravam pelo menos 1h, e ele fazia questão de nos acompanhar sempre que podia. Muitas vezes me ligava durante a tarde pra saber se eu já tinha feito o passeio, e quando eu dizia que ainda não, pedia que eu esperasse ele chegar em casa pra nos acompanhar. Foi ele, inclusive, quem a ensinou a andar ao nosso lado sem coleira e obedecer ao nosso chamado, mesmo que a pracinha estivesse cheia de cachorros com os quais ela estava louca pra correr junto. E ela obedecia. Se estivesse correndo na frente ele chamava por ela e ela vinha. Ele mandava sentar, ela sentava, e só voltava a brincar quando ele autorizasse.

Era ele quem apostava corrida com ela pela casa todas as noites e brincava de “enceradeira”, pra garantir que toda a sua energia de filhote fosse gasta e ela tivesse uma noite tranquila. Cansou de me ligar várias vezes durante o dia pra saber como ela estava, se teve dor de barriga, se tinha aprontado, se tinha comido direitinho, se já tinha ido tomar a vacina que estava marcada. Foi ele quem, inclusive, viu cair o primeiro dentinho de leite e guardou, porque sabia que era uma coisa que eu queria ter comigo.

Enfim, ele era pai. E pai presente, muito presente. Mesmo não estando em casa com ela o dia todo como eu, sabia tudo o que acontecia na vida dela. Participava de tudo, não só da parte boa.

Eu via a forma como ele a tratava, o carinho, a dedicação, a preocupação com a saúde e a educação dela, e ficava pensando nos filhos que vou ter com esse homem. Meus filhos certamente terão um pai incrível. Um pai que participa, que diverte e que educa. Isso me tranquiliza. Dar um pai assim para os meus filhos sempre foi uma grande preocupação. Hoje, a única dúvida que eu tinha sobre ele acabou. Posso ter filhos sem medo, com a certeza de que escolhi o melhor pai que eles poderiam ter.

Obrigada por me mostrar, Capitu.

Terça-feira

11

Março 2014

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Preto e branco

Escrito por , Postado em AMOR, FILHOS DE 4 PATAS, OUTRAS COISAS

O luto tem 5 fases fundamentais, segundo a psicologia: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Não existe um tempo definido para que uma pessoa passe por todas elas. Cada pessoa tem seu tempo e uma sequência própria para se adaptar a ausência de alguém ou alguma coisa importante. Com a partida da Capitu eu vivi todas as fases em um mesmo dia, com exceção da aceitação. Essa está sendo um pouco mais difícil de alcançar. Mas, como é sabido, o tempo maior mora justamente ali, entre as fases de depressãoaceitação.

Desde então, venho revivendo cada uma delas diariamente e esperando ansiosamente pelo dia que finalmente voltarei a ser eu.

Negação

Ouvi meu sogro dizer que a Capitu tinha morrido, mas não podia acreditar. Não tinha como ser verdade. Ela saiu de casa totalmente saudável, não teve problema algum, tinha apenas 6 meses de vida. Como poderia ter simplesmente morrido? Cá entre nós, dormir e não acordar nunca mais? Que piada! Lógico que não era verdade, pensei. Mas era. Demorou 30 segundos pra que eu entendesse que ele não mentiria pra mim. Era verdade.

Raiva

Como assim ela teve a audácia de chegar aqui, ficar 4 meses, me encantar e simplesmente ir embora? Por que ela fez isso comigo? Por que ela não deu nenhum sinal de que tinha algum problema, alguma má formação, algum defeito? Eu olhava pra ela e via uma cachorra perfeita. A mais perfeita do mundo. Ela teve duas consultas veterinárias de rotina em 4 meses, e em uma delas a vet disse “se bobear ela é mais forte do que nós duas juntas, é perfeita”. Seu coração foi auscultado nas duas consultas e nada de anormal foi encontrado. Era perfeito, assim com todo o resto dela. Então, como assim ela morre? Que atrevimento!

E eu, que raiva de mim! Como é que vivendo com ela todos os dias não reparei nada de anormal? Será que os soluços queriam dizer alguma coisa? Mas eu pesquisei! Soluços são normais e, na maioria das vezes, inofensivos, em qualquer ser vivo que possua um diafragma. Em filhotes de cachorro é uma coisa corriqueira, porque são muito afobados, muito espevitados. Bastava dar um leve susto ou tapar suas narinas com meus dedos durante alguns poucos segundos e tudo voltava ao normal. Era o que eu fazia e resolvia. Não podia ter relação com os soluços, podia? Que raiva!

E aquele episódio de vômito e diarreia que ela teve na primeira semana aqui? Será que queria dizer que alguma coisa estava errada? A vet disse que não. Ela amava brincar com garrafas pets, e eu esqueci de tirar o rótulo de uma garrafa de ice tea que dei à ela. Ela comeu um pedaço desse rótulo e seu corpo o expeliu naturalmente.

Então o que podia estar errado com ela? Ela estava com todas as vacinas e vermifugações em dia. Eu fui cuidadosa com isso. Não me atrevi a colocá-la em risco antes de ter certeza que seu sistema imunológico estava protegido. Não me atrevi a deixá-la em contato com outros cachorros antes de me certificar de que ela estava forte o suficiente. Então que raios pode ter acontecido com a minha cachorra? Que raiva! Que raiva dela por não ter me dado nenhum sinal. Que raiva de mim por não ter percebido nada.

Negociação

E se eu não tivesse viajado? Ela teria ficado o tempo todo comigo e eu, provavelmente, veria algum sinal de prostração, respiração ofegante, alguma coisa. Talvez tivesse tido algum tempo para pedir ajuda. Talvez se ela tivesse sido atendida bem rápido ainda estaria aqui comigo. Eu daria qualquer coisa pra voltar no tempo e fazer tudo diferente. Não teria viajado, pular carnaval nem é uma coisa que eu gosto mesmo. E se a gente voltar o tempo só um pouquinho pra eu tentar consertar isso? Prometo ser uma pessoa melhor daqui pra frente. Prometo dar o melhor de mim daqui por diante. Prometo não apressar os passeios. Prometo levá-la ao vet de novo, fazer exames de sangue e pedir um ecocardiograma, só pra ter certeza de que nada passou despercebido. Prometo dar um jeito pra que ela nunca mais precise ficar sozinha um minuto sequer. A esposa do zelador mora no andar de cima! A esposa do zelador ama a Capitu! Tenho certeza que não se importaria de fazer companhia à ela quando eu precisasse dar uma saidinha pra resolver qualquer coisa na rua. Assim ela nunca mais teria que passar pelo estresse de ficar em casa sozinha, mesmo que esporadicamente. Serei uma mãe melhor, prometo! Vamos voltar o tempo só mais um pouquinho… É culpa minha. Preciso dessa oportunidade de voltar no tempo e consertar as coisas que fiz errado.

Impossível. O tempo não anda pra trás. O tempo só anda pra frente.

Depressão

Ela realmente se foi. Não tem mais suas marcas de pata manchando a pintura nova das minhas paredes. Briguei com ela por isso várias vezes e agora daria qualquer coisa pra que ela manchasse as outras paredes que permaneceram limpas.

Não tem mais Capitu enchendo meu sofá de pelos. Nunca mais vou ter que lavar as mantas semanalmente por causa dela. Uma vez a cada 20 dias vai voltar a ser suficiente.

Não tem mais Capitu pegando chuva na varanda e marcando meu estofado com pegadas. Não tem mais Capitu comendo nossos sapatos. Não tem mais Capitu virando minha casa de pernas pro ar. Minha casa está limpa e arrumada. Que saco. Eu preferia antes, uma zona, mas cheia de Capitu por todos os lados.

Não tem mais Capitu pulando na minha cama escondida e se aconchegando debaixo do meu edredom. Não tem. Nunca mais ela vai me acordar mordiscando meu pé às 7h da manhã. Nunca mais vai vir correndo pro quarto toda vez que o despertador toca às 5h30 da manhã pra acordar o Rafa.

Sábado e domingo, os únicos dias que o Rafael acorda em um horário normal e mantém o hábito de me levar café na cama, não serão mais acompanhados pela Capitu pulando em cima de mim pra me acordar. Nunca mais. Um dia será outro cachorro fazendo isso. Mas não será a Capitu. Não mais. Nunca mais.

Nunca mais é muito tempo. Que sensação de vazio. De vácuo. A vida que era tão colorida, de repente ficou preta e branca.

Aceitação (working on it)

Aceitar que o tempo dela foi exatamente o que tinha que ser, é o único jeito de seguir. Me acostumar a viver novamente by default. Não tem jeito, não posso voltar no tempo. Não tem nada que eu pudesse ter feito diferente. Ainda que eu estivesse ao seu lado, era a sua hora de ir, então ela teria ido da mesma forma. Quando é chegada a hora, é chegada a hora.

Fico repassando todos os dias na minha cabeça e realmente não tem nada que eu possa usar contra mim, pra me culpar. Quais eram as perspectivas de vida dela, tendo sido abandonada em uma sacola de supermercado num terreno baldio? Baixas. Nosso amor fez com que o seu curto tempo por aqui superasse suas expectativas sobre a vida. O amor ela já conhecia. Cachorros nascem conhecendo o amor, a gente não precisa explicar. Mas ao nosso lado ela teve tempo de dar esse amor para alguém. Ela foi protagonista de uma história de amor que recebeu a hashtag ‘musa da pracinha’ no Facebook. Foi amada por cada pessoa que cruzou seu caminho. Ninguém passou por ela sem deixar sua companhia com um sorriso estampado no rosto.

Eu ainda não aceitei. Talvez ainda leve um tempo até que eu consiga aceitar. Mas no meio desse processo doloroso, entendi uma coisa importante: eu achava que ao adotá-la estava fazendo bem a ela. Que pretensão a minha. Ao adotá-la, era ela quem estava fazendo um enorme bem pra mim. Talvez a missão da Capitu tenha sido me ensinar que nem tudo é claro na vida. Nem tudo é preto no branco.

Segunda-feira

10

Março 2014

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Um amor chamado Capitu

Escrito por , Postado em AMOR, FILHOS DE 4 PATAS

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Não escrevia um blog com afinco desde o Capitu vai Casar! Estava ensaiando essa volta em um momento feliz. Quando estivesse grávida, talvez. Não imaginava que, ao invés disso, sentiria tanta de vontade de voltar a escrever em um momento tão triste pra mim. No entanto, como escrever sempre foi mesmo a minha melhor maneira de expor minhas emoções, externar sentimentos difíceis de serem colocados pra fora, cá estou eu novamente.

Sempre fui uma pessoa muito intensa. Intensa ao extremo. Não gosto de nada ou de ninguém mais ou menos. Ou amo ou odeio. Ou sou muito feliz ou muito infeliz. Ou me dou 100% ou não me dou. Da mesma maneira, tenho uma facilidade surpreendente de transformar qualquer pequeno acontecimento ruim na minha em uma tragédia grega. Com a morte da minha filha de quatro patas, um prato cheio pro drama, não estou fazendo nada de diferente. Estou sendo apenas coerente.

Capitu nos deixou no carnaval. Como estávamos viajando, só soubemos na quinta-feira passada. E os últimos dias estão sendo os mais tristes da minha vida.

Não tem drama nenhum na forma como ela se foi. Nenhum. Ela estava na casa dos meus sogros, na companhia do nosso outro cachorro, Zombie. Dormiu e simplesmente não acordou mais. E eu não estava ao seu lado. Quando recebi a notícia foi como se alguém abrisse meu peito e espremesse meu coração com as mãos. Chorei muito e chorei alto. A dor foi incapacitante. Me permiti sentir cada centímetro do meu corpo se contrair de dor com a falta que a Capitu me faz. Não dormi um minuto sequer durante aquela noite, e no dia seguinte não consegui me levantar da cama. Honestamente, não fiz o menor esforço pra isso. Não comi, não falei com ninguém, não tomei banho e não acendi as luzes da casa. Só chorei. Chorei o dia todo. Meus olhos quase não se abriam de inchaço. Achei um pelinho branco dela no meu travesseiro e respirava calmamente, com medo do vento o soprar pra longe. Um filhote de 6 meses, aparentemente saudável, que dorme e não acorda nunca mais. Seu coração parou de bater e ponto. Só. É ridículo.

A Capitu chegou e saiu da minha vida em 4 meses. Quando veio morar com a gente, adotada em uma feira que um projeto social do interior promoveu aqui em São Paulo, tinha aproximadamente 2 meses. Nunca soubemos sua idade com certeza, porque como ela havia sido abandonada em uma sacola de supermercado, em Sorocaba, junto com as suas irmãs, ninguém sabia ao certo a data do seu nascimento. A estimativa da idade foi feita pela vet, através da dentição.

Guardo comigo o momento exato em que a peguei no colo pela primeira vez. Ela se aconchegou no meu peito, deu um longo suspiro e adormeceu. Imediatamente pensei “péra um pouco, isso aqui é especial”. Ela era a cachorra que eu sempre quis. A que eu prepararia para crescer com os filhos que ainda vou ter, que me acompanharia nas caminhadas e viagens, que ficaria agarradinha comigo no sofá, para quem eu faria cubos de fruta congelados no verão e à quem eu daria os cotocos de cenoura depois de ralar a salada. E eu, eu seria a pessoa responsável de quem ela receberia todos os cuidados que precisava e, principalmente, merecia. Seria responsável pela sua alimentação, seus banhos semanais e seu bem-estar. Seria sua fonte de brincadeiras, condutora dos seus passeios diários e atenta às datas das suas vacinas. Seria a responsável por todos os anos de vida [relativamente] longa e totalmente saudável que ela teria pela frente. Sua maior fonte de amor e aprendizado.

No fim das contas, a Capitu, em poucos meses, me ensinou muito mais coisas e me deu muito mais amor do que eu jamais seria capaz de dar à ela, mesmo que me esforçasse muito. Não que fosse realmente necessário me esforçar, porque ela se fazia encantadora sem o menor esforço, e isso tornava absolutamente fácil amar aquela bolinha de pêlo desmedidamente. Tanto, mas tanto, que já nos primeiros dias depois da adoção deixei de sentir pena dela por ter sido abandonada e passei a sentir pena, muita pena de quem a abandonou. Por que quem, em nome de Deus, em sã consciência, abriria mão de ter aquela coisinha em sua vida todos os dias? Que pena da pessoa que decidiu que não queria passar esse tempo com ela. Pena da pessoa que abriu mão de sentir todo o encantamento que a simples presença de Capitu, mesmo dormindo, era capaz de proporcionar.

Por tudo isso, deixei a dor de perdê-la doer em cada centímetro do meu corpo, como nenhuma outra dor doeu tanto em minha vida. A dor de perder a Capitu é quase comparável a dor de perder meus avós. Quase, porque, por incrível que pareça, perder a Capitu dói mais. A diferença entre uma perda e outra é que eu estava preparada para a partida dos meus avós. Em alguns momentos cheguei a quase torcer pra que eles se fossem e tivessem paz, dadas as circunstâncias. No entanto, nada me preparou para perder a Capitu.

Chorei de inconformismo, de saudade, de incredulidade. E chorei de raiva. Deus me perdoe porque senti raiva dela por ter me deixado tão rápido, tão de repente, tão sem aviso. E raiva de mim por não ter sequer imaginado que aquilo poderia acontecer e não ter estado ao seu lado no momento da partida. Tenho certeza que pra mim seria infinitamente mais doloroso estar lá. Mas eu não me importaria, porque certamente seria mais confortável pra ela estar acolhida em meus braços, me ouvindo dizer que a amava e que ela não estava sozinha. Ao invés disso, eu estava pulando carnaval vestida de Tinker Bell quando ela se foi. Não ter estado lá corta meu coração em milhões de pedaços.

Por fim, chorei de gratidão. Gratidão por ter sido eu a escolhida para fazer da sua curta vida, a vida mais feliz que ela poderia ter. Me sinto realmente honrada por ter tido a oportunidade de viver esse amor tão grande, tão puro e tão sem interesse por alguém que não queria nada de mim além de um pouquinho de atenção e afagos diários. Era fácil amar aquele amor.

Eu sei que um dia a dor vai passar. A dor há de passar e só vão ficar as boas lembranças do nosso curto, porém inesquecível tempo juntas. Mas, enquanto isso, me permito chorar por todo o tempo que achei que teríamos juntas e não teremos mais. Por todos os planos que fiz para a nossa pequena família e que não vão se realizar. Por todas as vezes que apressei um pouquinho os nossos passeios, porque precisava voltar pra casa e trabalhar. Por todas as vezes que reclamei por ela insistir em querer brincar às 7h da manhã. Me permito chorar pela perda de uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida.

A Capitu me fez mãe. E perder um filho, ainda que ele não tenha saído de dentro de mim, dói de uma forma que é impossível explicar com palavras.